Foi a batalha mais longa de todas as lutadas em Tuscatlán ou em qualquer outra região de El Salvador. Começou à meia-noite, quando as primeiras granadas caíram da montanha, e durou a noite toda e foi até a tarde do dia seguinte. Os militares diziam que Cinquera era inexpugnável. Os guerrilheiros tinham atacado quatro vezes, e quatro vezes tinham fracassado. Na quinta vez, quando foi erguida a bandeira branca no mastro do quartel-general, os tiros para o alto começaram os festejos.
Julio Ama, que lutava e fotografava a guerra, andava caminhando pelas ruas. Levava seu fuzil na mão e a câmara, também carregada e pronta para ser disparada, pendurada no pescoço. Andava Julio pelas ruas poeirentas, procurando os irmãos gêmeos. Esses gêmeos eram os únicos sobreviventes de uma aldeia exterminada pelo exército. Tinham dezesseis anos. Gostavam de combater ao lado de Julio; e nas entre-guerras, ele os ensinava a ler e a fotografar. No turbilhão daquela batalha, Julio tinha perdido os gêmeos, e agora não os via entre os vivos ou entre os mortos.
Caminhou através do parque. Na esquina da igreja, meteu-se numa viela. E então, finalmente, encontrou-os. Um dos gêmeos estava sentado no chão, de costas contra um muro. Sobre seus joelhos jazia o outro, banhado em sangue; e aos pés, em cruz, estavam os dois fuzis.
Júlio se aproximou, e talvez tenha dito alguma coisa. O gêmeo que vivia não disse nada, nem se moveu: estava lá, mas não estava. Seus olhos, que não pestanejavam, olhavam sem ver, perdidos em algum lugar, em nenhum lugar; e naquela cara sem lágrimas estavam a guerra inteira e a dor inteira.
Júlio deixou o fuzil no chão e empunhou a câmara. Rodou o filme, calculou num instante a luz e a distância e colocou a imagem em foco. Os irmãos estavam no centro do visor, imóveis, perfeitamente recortados contra o muro recém mordido pelas balas.
Júlio ia fazer a foto da sua vida, mas o dedo não quis. Júlio tentou, tornou a tentar, e o dedo não quis. Então baixou a câmara, sem apertar o botão, e se retirou em silêncio.
A câmara, uma Minolta, morreu em outra batalha, afogada pela chuva,
um ano mais tarde.
Eduardo Galeano
*Texto retirado do livro "O Livro dos Abraços"
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
As pantufas cor de rosa com detalhes de borboletas colorem aquele quarto que vive no escuro. Ela sempre está ali deitada em uma rede, se embalado de um lado para o outro. As vezes fico me perguntando de como será viver até os 80 anos, deve ser dificil. Minha avó é prova de que isso é dificil, viver todo esse tempo e conseguir ter uma mente sã. Ela as vezes fica olhando pro nada, talvez pensando em coisas do passado, no grande amor da sua vida que já se foi ou apenas tentando se lembrar de alguém que esqueceu o nome. Algumas vezes, com muito esforço, ela se levanta daquela rede e vem levemente andando com suas pantufas cor de rosa pra me dar um beijo. Por horas ela fica do meu lado sem falar nada, as vezes ela apenas diz que me ama muito. Eu me arrepio, porque ainda sou uma das poucas pessoas que ela se lembra com carinho. Sempre gosto de mostrar pra ela que não é bom ficar naquela escuridão do seu quarto, mas ela diz que é mais aconchegante assim. Eu aceito. Sei que um dia tudo isso vai ficar na lembraça, mas por enquanto aproveito cada segundo, cada beijo, cada abraço, cada carinho que recebo dela, porque ela é tudo, é linda, é vó, é única.
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